segunda-feira, 9 de junho de 2014

Futebol, alergia do povo

A Copa do Mundo é igual a sexo no meu casamento: só acontece de quatro em quatro anos. Além do mais, faz algum tempo que eu não consigo passar das quartas de final com a Isaura, a minha patroa. E todos os meus dezessete leitores e meio (não esqueçam do anão) sabem que, na vida, como no futebol, quem não faz leva! Na minha idade avançada, o empate é sempre um bom resultado.

Já entrei de cabeça no clima da Copa e até pintei o meu Dodge Dart 73, enferrujado, de verde e amarelo! Minha residência de quatro rodas, que estava estacionada na Rua da Amargura, agora se mudou para a frente do prédio da Editora Abril na Rua do Sumidouro, travessa da Marginal Maluf. Quer dizer, da Marginal Pita, que dizer, da Marginal Quércia, quer dizer, da Marginal Pinheiros! Desculpem, mas é que em São Paulo tem muita marginal. Para alegria e alívio do meu gerente de banco, nesta semana começo a cobrir para VEJA mais uma Copa. Na verdade, eu fui contratado secretamente como blogueiro puxa-saco pelo ministro Gilberto Cascalho para me infiltrar na revista e destruir este combativo órgão da mídia golpista por dentro.
Como em todas as Copas, comentarei com acurado rigor jornalístico o Mundial no Brasil. Por isso mesmo, não pretendo assistir a nenhuma partida para que minhas críticas isentas e imparciais não sejam influenciadas pela atuação dos jogadores. O meu interesse na Copa é o mesmo dos empreiteiros que construíram os nossos estádios inacabados: eu quero ganhar uma bolada! E, para descolar um “por fora”, pretendo trabalhar de cambista na porta dos estádios e até mesmo como passeador de cachorras de algum jogador brasileiro.
Lembro com lágrimas nos olhos a fatídica Copa de 50. Aliás, o Maracanã, que foi construído para aquela Copa, não ficou pronto até hoje! Também me recordo bem da Copa da Suécia, onde eu e o Garrinha disputávamos para ver quem engravidava mais torcedoras. Marquei presença na Copa do México, na Copa dos Estados Unidos e, principalmente, na Copa da França em 98. No país dos queijos e das mulheres fedorentas, o Brasil perdeu a final porque Ronaldinho foi pego com três travestis em pleno Stade de France enquanto Zidane entrava com bola e tudo.
Poucos jornalistas vivos chegam à minha marca histórica nos Mundiais, o que me coloca no panteão dos grandes cronistas esportivos do Brasil, ao lado de Nélson Rodrigues, Armando Nogueira, João Saldanha, Juca Kfouri e o Reinaldo Azevedo. E isso sem entender nada de futebol, o que, aliás, muito me orgulho. Não saber nada sobre o rude e viril esporte bretão num país de 270 milhões de técnicos da seleção só mostra o tamanho avantajado da minha mente diferenciada!
O futebol mudou muito ao longo dos anos. Antigamente, o jogador era um sujeito macho e casca-grossa. Hoje, ao contrário, os craques são todos metrossexuais assumidos. Fazem a sobrancelha, depilam o corpo (inclusive virilha e contorno), fazem chapinha e alisamento progressivo, ostentando penteados cada vez mais originais. E mais: todos os jogadores brasileiros, rigorosamente todos, se chamam Maicon ou qualquer outra coisa com “son” ou “uel” no fim.
O brasileiro é guerreiro e não desiste nunca! O momento é de otimismo exagerado e apreensão irresponsável! O país inteiro já está no clima de Rumo ao Hexa, e mesmo os mais pessimistas não podem negar que a nossa seleção, até agora, fez uma bela campanha: Neymar fez campanha de cerveja, automóvel e cueca, Daniel Alves fez campanha de tênis, David Luiz fez campanha de refrigerante e o Felipão, então, fez campanha de tudo. (do Guia da Copa, da revista VEJA, de Mendes Pedreira, jornalista porque não sabia jogar bola quando era garoto)

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